Como Portugal percepciona a segurança digital (ou a sua falta)
O que Mais Preocupa Empresas e Cidadãos em Portugal e na Europa
Da fraude bancária ao roubo de identidade, do ransomware nas empresas ao spyware no smartphone — os dados que precisa de conhecer para se proteger.
Em 2024, Portugal registou 2.758 ataques cibernéticos documentados — mais 36% do que no ano anterior. Na União Europeia, cerca de 80% dos cidadãos dizem querer mais proteção digital. Mas o que exatamente nos preocupa? E o que podemos fazer? Este artigo analisa os dados mais recentes, separando as preocupações das empresas das dos utilizadores individuais.
O Panorama Atual: Uma Ameaça para Todos
Durante anos, associámos os ciberataques a grandes empresas, bancos ou governos. Essa ideia tornou-se perigosamente obsoleta. O cibercrime de hoje não escolhe alvos — escolhe vulnerabilidades. E em Portugal, como no resto da Europa, as vulnerabilidades estão por todo o lado: no email do escritório, no smartphone pessoal, na mensagem do “banco” que chegou por SMS.
O Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) publicou em setembro de 2025 a 6.ª edição do seu relatório anual. O cenário é inequívoco: crescimento expressivo de incidentes, maior sofisticação dos ataques, e um uso cada vez mais intenso de Inteligência Artificial generativa para criar mensagens falsas mais convincentes e ataques mais difíceis de detetar.
Fonte: CNCS — Relatório de Cibersegurança 2024
Os ciberataques em Portugal aumentaram mais de 716% desde 2019. O cibercrime tornou-se uma ameaça permanente que não distingue entre grandes empresas, entidades públicas ou utilizadores comuns.
— CNCS / PwC Portugal, 2025As 8 Maiores Preocupações das Empresas
Para as organizações — sejam PME, multinacionais ou entidades públicas — as consequências de um ataque podem ser devastadoras: paragem operacional, perda de dados de clientes, coimas regulatórias e danos reputacionais irreparáveis. O ENISA Threat Landscape 2024 identificou oito tipos de ameaças prioritárias para as empresas europeias.
Fonte: CNCS / ENISA Threat Landscape 2024
As 7 Maiores Preocupações dos Cidadãos
Para os utilizadores individuais, a ameaça começa no lugar mais improvável: o ecrã do smartphone. Com a nossa vida financeira, social e profissional concentrada num único dispositivo, nunca fomos tão vulneráveis. O Eurobarómetro e os dados do CNCS revelam o que mais nos preocupa enquanto cidadãos.
Fonte: Eurobarómetro “Digital Decade 2024”
Empresas vs. Pessoas: Comparação Direta
🏢 Empresas
- → Ransomware com pedidos de resgate milionários
- → DDoS que paralisa serviços e operações
- → CEO Fraud com transferências indevidas
- → Supply chain via fornecedores vulneráveis
- → Espionagem industrial e estatal
- → Fuga massiva de dados de clientes
- → Coimas RGPD até 4% da faturação global
- → Falta de MFA na autenticação corporativa
👤 Pessoas
- → Fraude bancária via SMS e app falsa
- → Roubo de identidade para créditos fraudulentos
- → Esquemas emocionais (olá pai/mãe)
- → Apps espião no smartphone pessoal
- → Privacidade violada por apps gratuitas
- → Deepfakes para extorsão e chantagem
- → Crianças expostas a conteúdos nocivos
- → Passwords fracas reutilizadas em tudo
Fonte: ENISA Threat Landscape 2024 / Eurobarómetro 2024
O Smartphone: O Alvo Preferido
O telemóvel tornou-se o centro da nossa vida digital — e, por isso, o alvo mais valioso para os cibercriminosos. Contém o nosso banco, o nosso email, as nossas fotos, as nossas conversas e, cada vez mais, a nossa identidade digital. A ENISA dedica um relatório específico aos riscos de segurança dos smartphones, identificando 10 categorias de risco crítico.
Fonte: ENISA — Smartphones Security Risks Report
Em Portugal, os ataques por smishing (phishing via SMS) cresceram de forma acelerada em 2024. Os criminosos enviam mensagens falsas em nome de bancos, serviços de entregas e até da Autoridade Tributária, com links para páginas idênticas às originais. Em segundos, credenciais bancárias são roubadas.
Como se Proteger Guia Prático
Autenticação em dois passos é a proteção mais eficaz. Use uma app como o Google Authenticator, nunca apenas o SMS.
Mensagens urgentes sobre contas bloqueadas ou transferências pendentes são quase sempre fraude. Ligue diretamente para a entidade.
Use um gestor de passwords (Bitwarden, 1Password). Nunca reutilize a mesma password em dois serviços diferentes.
90% dos ataques exploram vulnerabilidades já corrigidas. Mantenha o sistema operativo e as apps sempre atualizados.
Verifique regularmente que apps têm acesso à câmera, microfone e localização. Revogue o que não for necessário.
Não faça operações bancárias em redes Wi-Fi públicas sem VPN. O atacante pode estar na mesma rede a interceptar o seu tráfego.
O Que a Europa Está a Fazer
A resposta europeia à crise de cibersegurança passa por legislação ambiciosa. Em outubro de 2024, entrou em vigor o Cyber Resilience Act — o primeiro regulamento global a impor requisitos de cibersegurança obrigatórios a todos os produtos digitais vendidos na UE. A partir de dezembro de 2027, qualquer dispositivo conectado — desde um router doméstico a um smartphone — terá de cumprir padrões mínimos de segurança desde a conceção.
| Regulamento | O que muda | Quando |
|---|---|---|
| Diretiva NIS2 | Obriga setores críticos a reportar incidentes em 24h e implementar gestão de risco formal | Out. 2024 |
| Cyber Resilience Act | Segurança obrigatória em todos os produtos digitais “by design” — da conceção ao fim de vida | Dez. 2027 |
| RGPD (reforço) | Coimas até 4% da faturação global por violações de dados. Obriga notificação em 72h | Em vigor |
| AI Act | Regula uso de IA em cibersegurança e proíbe certas aplicações de vigilância em massa | 2025–2026 |
Conclusão: A Cibersegurança É de Todos
A cibersegurança deixou de ser um problema exclusivo das equipas de TI ou das grandes corporações. É um problema de cidadania digital. Cada utilizador que ativa o segundo fator de autenticação, que desconfia de uma mensagem urgente, que mantém o seu smartphone atualizado — está a tornar o ecossistema digital mais seguro para todos.
Em Portugal, os números mostram uma consciência crescente mas uma proteção ainda insuficiente. O CNCS, a ENISA e o Eurobarómetro convergem numa mensagem clara: o risco existe, está a crescer, e a melhor resposta é a combinação de tecnologia, educação e hábitos digitais saudáveis.
A questão não é se a sua empresa ou o seu smartphone será atacado. A questão é quando — e se estará preparado.
— ENISA Threat Landscape 2025- · CNCS — Relatório de Cibersegurança 2024, 6.ª edição “Riscos & Conflitos”
- · ENISA — Threat Landscape 2024 e 2025
- · Comissão Europeia — Eurobarómetro “Digital Decade 2024”
- · PwC Portugal — Cibersegurança em Portugal 2025
- · Parlamento Europeu — Cyber Resilience Act (2024)
- · IBM Security — Cost of a Data Breach Report 2024
Artigo elaborado para o Ajuda à Informática · Dados referentes a 2024–2025 · Última atualização: Abril 2026
A cibersegurança não é um ‘extra’ tecnológico, é o cinto de segurança da sua vida digital. Num mundo onde 2024 registou um ataque cibernético a cada poucos minutos, em Portugal a passividade é um convite ao “desastre”. Não seja a próxima estatística do CNCS.
Criar defesas não exige ser um perito, exige ser consciente: um segundo fator de autenticação ativado hoje pode poupar-lhe anos de dores de cabeça amanhã. O cibercrime evoluiu, e você? Vai esperar perder o acesso às suas contas para começar a protegê-las?
Se gostou deste artigo e o achou interessante. Dê-nos o seu “GOSTO“, partilhe-o com os seus amigos e familiares. Este site serve para isso mesmo: elucidar, ensinar e relembrar algum assunto a quem gosta de Informática.
Se tem uma opinião diferente, existem dúvidas ou questões, comente ou envie um e-mail para: formacaoajuda@gmail.com
Este site já conta mais de noventa artigos que podem ser do seu interesse. Vá para o menu deste site e veja o Menu de Artigos e faça as suas escolhas.
Subscreva a nossa newsletter: